Precisamos Falar Sobre Cerveja

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Precisamos falar sobre cerveja.

Ou não… mas a verdade é que é um assunto muito divertido!

Há anos trabalho com cerveja. Nessa vida de gaiteiro tive a oportunidade de atender milhares de clientes. Muitas pessoas têm diversas dúvidas a respeito da maravilhosa cerveja e suas diversas facetas, histórias, possibilidades, opções e como é feita a produção. Algumas têm vergonha de perguntar ou, quando perguntam, não são levadas a sério. O mais problemático para mim: existe muita informação errada disponível que é passada como verdade, contada no churrasco, repassada em grupos de Whatsapp, dentre outras formas de propagar desinformação.

Desde que me aventurei no meio cervejeiro artesanal uma coisa, sem sombra de dúvida, é fato: os clientes começaram a ser mais exigentes com o que bebem.

Esse é um dos motivos para que as grandes empresas invistam pesado em marketing das famosas PURO MALTE.

É tanta cerveja saindo do gelo, ou da geladeira, com aspecto suado e as palavras bem destacadas “PURO MALTE” em seu rótulo. São veiculadas tantas propagandas que o consumidor realmente acredita que somente esse fato – ser puro malte – faz com que a bebida tenha uma qualidade superior. E não é só. As grandes cervejarias, ciente do público mais exigente, começaram a explorar os ingredientes da cerveja como se fossem um atrativo especial. Exemplos: tem duplo malte é INCRÍVEL ou experimente essa cerveja que tem LÚPULO… nhami nhami.

Antes de prosseguir, é preciso definir de maneira objetiva o que é cerveja.

Trata-se de uma bebida fermentada feita basicamente de água, malte, lúpulo e levedura. Podem ser adicionados outros adjuntos ou insumos dependendo da proposta a ser explorada pela cervejaria/cervejeira(o). Para utilizar a cevada é necessário prepará-la e aí é que entra o processo de malteação da cevada ou de outros grãos como trigo, aveia e centeio, por exemplo. Tal processo consiste em preparar esse ingrediente fundamental para possibilitar a extração dos açúcares, amido solúvel e nutrientes do malte utilizados pela levedura no processo de fermentação, sem o qual a cerveja não existe.

E aí mora uma questão fundamental: Todas as cervejas levam malte de cevada no processo de produção? A resposta, na restrita definição de cerveja, é positiva.

Dito isso, existem cervejas que levam em sua composição 100% de cereais maltados. Dentro do universo cervejeiro elas correspondem a grande maioria dos estilos de cervejas hoje descritos nos guias pertinentes. Inclusive, sobre os estilos, iremos falar mais a respeito deles nos próximos artigos.

O fato da cerveja receber outros adjuntos não quer dizer necessariamente que a sua qualidade é inferior. Acontece que as cervejarias mais populares demonizam dois ingredientes que elas próprias utilizam há anos, quais sejam, o arroz e o milho para diferenciar a linha das cervejas comuns das conhecidas como “premium”, que definitivamente não são sinônimo de qualidade.

Ou seja, trocando em miúdos:

  • A qualidade da cerveja vai depender de diversos fatores relacionados tanto à produção como à distribuição e ao armazenamento.
  • Existem cervejarias que utilizam adjuntos e fazem ótimos produtos. A propósito, vou transcrever a definição do Oxford da cerveja para ilustrar o que estou tentando dizer: “Enquanto os adjuntos são amplamente ridicularizados por entusiastas de cerveja por seu amplo uso em muitas cervejas (para suavizar a coloração e sabor), muitos usos dos adjuntos são bastante tradicionais. De fato, a utilização contínua de certos adjuntos em algumas cervejas convencionais de grande volume torna a sua utilização tradicional para esses estilos de cerveja.” (p. 51)
  • A produção de cervejas massificadas com 40% ou mais de cereais não maltados existe em vários lugares do mundo. Seu custo de produção é mais baixo. Por longo tempo elas dominaram o mercado, sendo as mais consumidas. Uma delas, inclusive, orgulha-se de nunca ter sido puro malte (alô, Budweiser!).
  • O estilo da cerveja é, em síntese, a maneira que os cervejeiros utilizam para categorizar cervejas diferentes. Existem mais de 150 estilos disponíveis nesse mundão de Deus. Conversa para um próximo encontro, certo?
  • Existem diversos tipos de malte (cevada, trigo, aveia, etc.) e, sim, vários estilos de cerveja trazem em sua composição mais de um tipo 🙂
  • O lúpulo é um ingrediente fundamental na produção de cerveja. Existem várias espécies, cada uma com características sensoriais distintas no olfato e paladar.
  • Cervejas massificadas, leves e que devem ser bebidas extremamente geladas atendem ao objetivo para que foram criadas. Não evidenciam complexidade, nem destaque a qualquer de seus ingredientes e são fáceis de beber num geral.

Além das cervejas massificadas, que basicamente são do mesmo estilo, existem outras incríveis possibilidades nas prateleiras dos pontos de venda, hoje inclusive em redes de supermercados. O mundo cervejeiro é uma porta da esperança gigantesca e com informações corretas, maior é a possibilidade de escolhas e consequentemente maior aproveitamento desse universo.

O que vale pensar sobre tudo isso?

Cerveja é uma bebida milenar e histórica.

Há um mundo cervejeiro a ser explorado e juntos conseguiremos 😉

Gabi Demozzi.

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Gabi Demozzi
Meu nome é Gabi Demozzi, sou formada em Ciências Sociais pela UFPR com ênfase em Sociologia. Comecei os estudos e trabalho com cerveja artesanal faz 11 anos, e além do curso de Sommelière eu tive a oportunidade de fazer o curso Avançado de Tecnologia Cervejeira e o Especialização em harmonização no Instituto da Cerveja do Brasil, tenho o Certified Beer Server do Cicerone Program. Já desempenhei cargo de gerência e gestão de equipe, consultoria de campo onde ministrei treinamentos específicos sobre cerveja, atendimento e organização de ponto de venda em várias cidades do Brasil.

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